• Wagner Creoruska

A História do Banjo de 5 Cordas

Atualizado: 21 de Abr de 2020

Apesar de ser considerado um instrumento do estilo Bluegrass, Country, Folk, e muitas vezes visto como um instrumento tipicamente "Americano", a história do banjo de 5 cordas não começa nos Estados Unidos, ela nos leva para outro continente, nos faz olhar para uma cultura muito diferente. Ela nos faz viajar no tempo e na história, procurando os registros que nos mostram que o banjo já era conhecido muito antes que música caipira o adotasse como um símbolo. Uma história com um presente feliz, mas um passado muito triste que não pode ser contado sem lembrar e levantar questões como "racismo, escravidão, apropriação e desigualdade. Hoje vamos falar da história do Banjo de 5 Cordas.


Uma Jornada pela Origem Se formos rastrear a origem dos instrumentos de cordas, tocados com dedilhados nós seremos levados até a Pérsia antiga, de lá muitos outros instrumentos foram criados e difundidos em cada lugar específico. Na Europa um instrumento chamado BANZA, de Portugal é considerado um possível parente do banjo. Porém é na África que encontramos instrumentos feitos de cabaça, com pele de animal, e, apesar dos braços serem feitos de forma mais simples (sem trastes, mais finos, sem "fingerboard") são considerados os ancestrais do Banjo como conhecemos hoje, esse instrumento era chamado Kora. Outro instrumento que veio do Senegal e Gambia foi o Akonting Principalmente na forma de tocar, muitos desses instrumentos já usavam uma corda como "drone" é uma técnica bem parecida com uma técnica que ficou conhecida como Stroke Style, que consistia basicamente em tocar as cordas com as unhas da mão direita, batendo nelas, e usando o polegar para digitar a ultima corda, essa técnica hoje em dia é conhecida como clawhammer. E apesar de todas as especulações sobre a origem exata do banjo temos que admitir que tendo essas característica esse possivelmente é o parente mais antigo que podemos encontrar.

Esse tipo de instrumento viajou com os navios de escravos para a América no começo do século 17, durante a expansão marítima e colonização. Existem registros de instrumentos chamados bangie, banza, bonjaw e banjer no Caribe no começo do século 17. Existe também uma pintura chamada "The Old Plantation" datada de 1785 que mostra um instrumento muito parecido com um banjo, e, apesar de ter apenas 4 cordas, já exibia uma corda que começava no meio do braço como a quinta corda atual.



Nessa época há relatos que os banjos já estavam se tornando popular nas plantações americanas. Foi nessa época que Thomas Jefferson escreveu em suas Notas sobre o Estado da Virgínia que o "banjar" era o "principal instrumento musical dos negros americanos". Dos negros para os brancos Em 1800 o banjo sai das plantações e começa a viajar pelo país, um soldado confederado escreve em seu livro de memórias que aprendeu a tocar o banjo com os escravos em sua casa quando criança. Foi nessa época que um dos maiores nomes da popularização do banjo aprendeu também a tocar o instrumento na Virginia: Joel Walker Sweeney, ele se tornou um músico muito popular na época e tocava nos Minstrels Shows. Os Minstrels shows eram apresentações que misturavam música, dança e comédia. Joel Walker Sweeney era um dos artistas que trabalhava em uma dessas "companhias", uma das curiosidades desses shows era que apesar dos músicos serem brancos, eles se pintam para parecer negros e os shows retratavam de forma cômica a vida simples dos escravos, muitas vezes satirizando o sofrimento e menosprezando a realidade das comunidades negras no país.



Foi nessa época que o banjo perdeu a imagem de um instrumento de escravos, para se popularizar como um instrumento da cultura popular norte-americana. A relatos que em 1866 já haviam mais de 10.000 banjos em Nova York, e esse "surto" de banjos recebeu até um nome "banjo mania". Apesar de controverso é atribuído a Joel Walker Sweeney também a invenção da Quinta Corda como drone, e a troca do corpo de cabaça pelas caixas de madeira. Nesse período o banjo começou a ser remodelado, e não bastava fabricar banjos para os brancos, houve a necessidade de desvincular a imagem do banjos às músicas do campo, simplistas e fazê-lo emergir com a música para a alta-sociedade, é nessa era que o banjo começa a se adaptar para outros estilos de som, como o Jazz, o Ragtime. E outros tipos de banjos são criados para dar mais ritmo a esses estilos, nessa época nasceu o banjo Plectrum, e o banjo tenor, que são banjos de 4 cordas, mais usados em estilos como dixieland, jazz, e é nessa época também que o banjo migra de volta para a Europa e se re-populariza na música irlandesa com o banjo tenor. Aqui cabe um adendo, que junto com o crescimento do instrumento começaram a surgir os primeiros Métodos para aprender a tocar banjo, inclusive eu achei cópias desses métodos em PDF e estou disponibilizando eles em PDF. De 1895 até o final dos anos 20 o banjo era basicamente um instrumento de acompanhamento nas bandas de Ragtime e Jazz. Claro que vários músicos se destacaram, mas a essência do instrumento está basicamente esquecida, isso inclui a quinta corda e seu uso. O renascimento do Banjo de 5 Cordas Antes de continuar em preciso citar o nome de dois personagens que muitas vezes não estão relacionados à história do banjo, mas que têm um papel fundamental e muito expressivo nessa história. O primeiro é Gus Cannon, também conhecido como Banjo Joe, que aprendeu a tocar violino e banjo desde pequeno. Criado dentro da música folclórica e na tradição do campo ele aprendeu o banjo como era tocado antigamente, além de conhecer músicas e muito da cultura de seus antepassados. Gus Cannon ganhou notoriedade viajando com os Medicine Shows, que eram apresentações parecidas com os minstrel shows, mas era itinerantes. Esse tipo de show foi muito popular durante a corrida do ouro, e consistia basicamente em uma caravana que tinha como maior objetivo vender remédios e elixires de cura. Eles andavam de cidade em cidade e para atrair as pessoas para seu discurso de venda os donos das caravanas contratavam músicos, mágicos e contadores de histórias para entreter e chamar a atenção das pessoas. Gus Cannon já tocava em suas apresentações o banjo de uma forma diferente do que a maioria dos banjoístas da época tocavam, ele dedilhava e tinha como referência também um novo estilo de música que nascia naquela época, o Blues. A registros dele tocando banjo com slide inclusive. Ele foi também uma figura muito importante no nascimento de outra cultura musical que tem se tornado muito popular atualmente, as Jug Bands. O segundo nome é Charlie Poole, nascido na Carolina do Norte ele também foi criado ouvindo músicas tradicionais e tocando banjo. Ele era apenas um trabalhador na indústria textil que levava seu banjo para o Saloon no final do dia, e foi em um desses dias de bebedeira e jogatinas que ele começou a tocar com seu cunhado Posey Rorer e formaram a banda que os tornaria famosos: The North Carolina Ramblers Foi bêbado e em uma aposta que ele descobriu uma nova forma de tocar o banjo, a forma que hoje associamos a Earl Scruggs, o three finger style (que vou falar mais logo logo), já era tocado por Charlie Poole e na verdade ele foi forçado a tocar assim depois de apostar que 20 centavos que pegaria uma bola arremessada na maior velocidade que seu amigo também bêbado poderia lançar. Ele demorou para abrir a mão e o resultado foi que a bola bateu em sua mão fechada e quebrou seus dedos. Se você ver fotos dele tocando banjo vai perceber que ele tocava com a posição exata que a maioria dos banjoistas emprega para executar o three finger style. Fazendo shows com banjo, violino e violão, e tocando músicas tradicionais das montanhas certamente o The North Carolina Ramblers é um dos maiores precursores do estilo que viaria ser conhecido como Bluegrass. Vale mencionar também que a música Don't Let your Deal Go Down, era de Charlie Poole, um tema muito tocado no bluegrass em todos os tempos. A busca por resgatar e popularizar a música tradicional norte americana, e a forma antiga de se tocar banjo nos leva a um dos maiores nomes nesse sentido, ninguém mais, ninguém menos que Pete Seeger. Muita gente acha que Pete Seeger foi apenas aquele cara chato que desligou a energia quando Bob Dylan subiu no palco do Newport Festival em 1965 e trocou o violão e gaita por uma banda de rock n roll, bem no meio de um festival de Folk tradicional. Pete Seeger ficou tão bravo com a ousadia do jovem que desligou os cabos de energia na tentativa de arruinar o show de Dylan. Mas Pete Seeger era apenas um velho chato tentando frear uma onda que ele mesmo começou. Não tem como não citar Pete Seeger como um dos maiores nomes da música Folk, e possivelmente um dos maiores divulgadores desse estilo simplesmente porque ele trabalhou como assistente de Alan Lomax para a Livraria do Congresso Americano viajando e catalogando músicas que representavam a cultura tradicional norte-americana. Ou seja, Pete Seeger viveu a música folk, e pode ver a forma como as pessoas simples das montanhas tocavam e ensinavam seus filhos, netos a tocar o banjo. Muito do trabalho de pesquisa de Alan Lomax pode ser visto no documentário "Appalachian Journey", que eu realmente recomendo, junto com outro documentário sobre o banjo de 5 cordas chamado "Give Me The Banjo", ambos disponíveis no youtube.


Pete Seeger foi um dos arautos do banjo, um verdadeiro porta voz do instrumento e suas técnicas, além de ter sido o primeiro a criar uma vídeo aula do instrumento e um método escrito: How to Play the Banjo de Pete Seeger foi o método mais popular de banjo 5 cordas por décadas, um verdadeiro manual gravado em 1955. O Banjo como nós conhecemos Hoje Tudo que aprendemos até aqui têm um sentido e o objetivo principal é mostrar para você, algumas coisas que farão ainda mais sentido daqui pra frente. - Primeiro, de onde o banjo veio e como ele fez sua história nos Estados Unidos - Segundo, como o instrumento mudou para chegarmos a sua forma de ser tocado atualmente. - Terceiro e por último de onde vêm a música que está tão atrelada ao Banjo de 5 Cordas. É agora que eu falo de Earl Scruggs o cara que mais tornou o banjo popular, importante e o banjoísta mais influente na vida de todos que querem aprender a tocar esse instrumento. Earl Scruggs nasceu em Shelby, Carolina do Norte, e foi apresentado a música das montanhas apalaches desde cedo. Ele cresceu ouvindo música e ouvindo banjo. Dizem que ele admirava muito a forma como um de seus tios tocava o banjo e que foi observando como ele tocava que desenvolveu toda a técnica que hoje nós conhecemos como Scruggs Style.



A verdade é que o Scruggs Style não é necessariamente o Three Finger Style, que nós vimos que Charlie Poole, e até mesmo Don Reno (outro grande banjoístas) dizia já tocar antigamente. O Scruggs Style é a forma de Earl Scruggs executar o Three Finger Style, que é diferente sim de outras pessoas, e é a forma que a maioria dos banjoistas de hoje em dia, buscou aprender e teve como referência desde então. A história de Earl Scruggs começa quando ele cruza com outra figura muito importante para o Bluegrass: Bill Monroe. Ele foi banjoístas do Bill Monroe por algum tempo e dizem que o bluegrass nunca mais foi o mesmo depois que Earl Scruggs tocou com Bill Monroe. E não foi mesmo, depois de sair do conjunto de Bill, Earl Scruggs e Lester Flatt fundaram os Foggy Mountain Boys e provavelmente foi a banda de bluegrass que mais fez sucesso em todos os tempos. Só pra citar alguns dos "jobs" que esse caras fizeram na época e que ajudaram a alavancar tanto o Banjo e o Bluegrass a chegar a nos hoje em dia. A abertura do seriado the Berverly HIllbilies, aqui conhecido como A Familia Buscapé, é de autoria de Lester & Scruggs. Outro grande sucesso de audiência foi o filme de Bonnie E Clyde de 1967. Sonny Osbourne diz que ouvi sempre Earl Scruggs tocando no rádio e sempre ficava fascinado, porque ele tinha tudo o que qualquer banjo player precisa ter em sua mão direita. Enfim, não tem como falar de bluegrass sem falar de banjo. E não têm como falar de Banjo e não falar de Earl Scruggs. E aqui estamos chegando ao final desse vídeo, e ai você pergunta: "O Bardo, então quer dizer que a história do banjo só vai até Earl Scruggs?" E eu digo, não! De fato existe muito a ser estudado desde Earl Scruggs, existem outros estilos que foram desenvolvidos em cima do Scruggs Style, e mesmo em paralelo a ele, existem outros grandes banjoístas que tocam tudo e até mais que Earl Scruggs, mas esses são assuntos pra outros vídeos. O banjo como o conhecemos e caracterizamos esta ali, nas mão de Earl Scruggs tocando, e possivelmente ainda vão ser essas mãos e músicas que farão o banjo se popularizar mais e mais. Desde então as técnicas de se tocar o banjo não mudaram, elas evoluíram, o próprio instrumento em si mudou também, com a tecnologia surgiu a necessidade de eletrificar um instrumento que essencialmente foi criado para soar bem, e alto, acústico, e isso tem sido um desafio até hoje. Além disso o banjo têm sido incorporado a outros estilos que fogem bastante da música folk americana, do bluegrass. Enfim, fazendo analogia com a música que eu lancei a uns dias atrás, o banjo está agora buscando novos Horizontes, e você pode ajudar a continuar essa história a partir daqui.

Download Métodos antigos:

https://www.dropbox.com/sh/x715cu41xn67jrx/AAA8dZ-lBs8EJJknphN2Oe1aa?dl=0

Fontes:

Documentário: Give Me The Banjo (2011) - https://www.youtube.com/watch?v=43tSXJZ0E-E

Documentário: Appalachian Jorney (1991) - https://www.youtube.com/watch?v=MXh8SDp0H-E&t=236s

Livro: The Best Sounding Banjo - Roger H. Sminoff

Wikipédia: https://en.wikipedia.org/wiki/Banjo

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